História
02 julho 2026
Transformando os Frutos do Baobá em Oportunidade, Antes do Amanhecer
GURO, Moçambique - Às quatro horas da manhã, quando a maior parte da comunidade de Nhamassonge ainda dorme, pequenos grupos de mulheres iniciam silenciosamente sua jornada.Elas caminham por quase uma hora no escuro, através de matas onde cobras, vespas e animais selvagens fazem parte do terreno. Algumas carregam apenas lanches e gravetos. Outras dependem da luz fraca de seus celulares.Elas saem cedo por um motivo.“Quando o vento está forte, o malambe (o fruto do baobá) cai. Se você chegar primeiro, coleta mais”, uma delas explica.No distrito de Guro, no centro de Moçambique, é assim que a oportunidade começa. Uma economia florestal liderada por mulheresEm Nhamassonge, 35 mulheres, apoiadas pela Fundação Micaia, reuniram-se para compartilhar suas experiências como parte de uma associação de coleta de baobás que fornece produtos para a Baobab Products Mozambique (BPM).Juntas, elas representam uma força de trabalho crescente, porém muitas vezes invisível – mulheres que constroem seus meios de subsistência a partir de produtos florestais não madeireiros.Por gerações, o fruto do baobá tem feito parte do cotidiano: consumido fresco, misturado em mingau ou transformado em iogurte. Mas hoje, ele é também algo mais. É renda.Cada mulher pode coletar entre 70 e 150 quilos de frutos por dia durante a temporada. Vendidos inteiros, os frutos do baobá geram dinheiro que é imediatamente reinvestido em necessidades familiares, alimentação, mensalidades escolares e materiais de construção. “Em muitos casos, é assim que construímos nossas casas”, compartilha uma das participantes no encontro.Isso reflete uma realidade mais ampla nas florestas de miombo: as florestas não são apenas ecossistemas; são fontes de sustento e de oportunidades econômicas para as comunidades. Quem chega primeiro, levaAqui não há limites de propriedade em torno dos baobás, eles são um recurso compartilhado. O sistema é simples: quem chega primeiro colhe os frutos.Isso cria urgência e disciplina.As mulheres se organizam em pequenos grupos, geralmente de duas a cinco pessoas, não apenas para melhorar a eficiência, mas também por segurança. O medo faz parte do trabalho, já que os conflitos entre humanos e animais selvagens são sempre um risco.Ao entrarem na floresta, podem encontrar os animais que a habitam. Mencionam cobras. Mencionam javalis e hienas. Mencionam caminhar na escuridão sem iluminação adequada, sem saber quem está olhando para elas com olhos adaptados para enxergar à noite.E, no entanto, elas continuam.“Não temos medo quando vamos juntas”, diz uma mulher. Então, ela faz uma pausa. “Mesmo que tenhamos medo, ainda assim vamos. Precisamos do dinheiro”. Da floresta ao mercado: uma cadeia de valor frágilO fruto do baobá colhido em Nhamassonge percorre uma longa jornada: (i) os frutos são colhidos na floresta e levados para casa; (ii) são secos por cerca de um mês em estruturas de madeira elevadas; (iii) são, então, transportados para Guro para o processamento inicial; e (iv) para o processamento final, que transforma a polpa do malambe em pó em Chimoio.No passado, as mulheres também quebravam e processavam os frutos localmente, obtendo renda adicional. Mas isso mudou.As rigorosas normas de segurança alimentar exigidas pelos mercados internacionais dificultaram a manutenção do processamento local. Riscos de contaminação, como poeira, pragas e falta de ambientes controlados, impediam que a atividade atendesse aos padrões exigidos.Hoje, a maioria das mulheres vende apenas os frutos inteiros.Essa mudança destaca um desafio crucial: como conectar os produtores rurais a mercados de maior valor agregado sem excluí-los da agregação de valor. Preenchendo a lacuna: onde as florestas encontram os mercadosÉ exatamente aqui que duas iniciativas transfronteiriças – o Projeto Florestas de Miombo e o Projeto de Desenvolvimento da Cadeia de Valor e Comércio Agrícola Moçambique-Zimbábue – encontram-se. Duas iniciativas financiadas pela Itália através da Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS) e implementadas pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em apoio aos esforços e liderança do Governo de Moçambique.De um lado, o Projeto Miombo se concentra na proteção e restauração de ecossistemas florestais, apoiando simultaneamente meios de subsistência sustentáveis baseados em Produtos Florestais Não Madeireiros, como os frutos do baobá.Do outro, o Projeto Comércio trabalha para fortalecer as cadeias de valor e melhorar o acesso aos mercados, garantindo que os pequenos agricultores possam passar de vendas informais e de baixo valor para sistemas comerciais mais estruturados e rentáveis.Juntos, abordam duas faces da mesma realidade.Em locais como Nhamassonge, o desafio não é apenas como os frutos do baobá são colhidos, mas como são transportados, processados e quem beneficia ao longo do processo.O Projeto Comércio reconhece que muitos produtores rurais permanecem excluídos dos mercados de maior valor devido à infraestrutura precária, à capacidade de processamento limitada e às barreiras ao comércio formal. Ao agrupar em associações os produtores que enfrentam esses desafios e ao fornecer orientação técnica e treinamentos, alguns desses desafios podem ser abordados localmente. Ao mesmo tempo, o Projeto Miombo enfatiza que a gestão florestal sustentável deve caminhar lado a lado com oportunidades econômicas viáveis para as comunidades. Os recursos naturais podem representar uma fonte contínua de renda para as pessoas que vivem em ambientes intocados, permitindo um crescimento que pode ser mantido geração após geração. Mulheres no centro da transformaçãoNessa transição, as mulheres não são apenas participantes. Elas são as principais agentes de transformação.Em Moçambique e no Zimbábue, as mulheres representam uma grande parcela dos pequenos produtores e estão tradicionalmente muito envolvidas em meios de subsistência baseados na floresta. No entanto, elas frequentemente enfrentam as maiores barreiras de acesso a mercados, recursos e espaços de tomada de decisão.As mulheres de Nhamassonge refletem tanto essa realidade quanto o seu potencial.Elas já estão organizadas. Elas já entendem o recurso. Elas já participam da cadeia de valor. O que lhes falta não é apenas capacidade, mas oportunidade.Com apoio direcionado, melhores equipamentos, condições de trabalho mais seguras, opções de processamento aprimoradas e vínculos mais fortes com os mercados formais, elas poderiam ir além da venda de matéria-prima e agregar maior valor ao seu trabalho. O início da mudançaDe muitas maneiras, a mudança na paisagem do Miombo não começará com novos sistemas, mas sim com o fortalecimento do que já existe.A Associação de Mulheres do Baobá é um desses pontos de partida.Suas práticas já estão alinhadas com a sustentabilidade: (i) coleta apenas de frutos caídos, sem danificar as árvores; (ii) trabalho coletivo para gerenciar riscos; e (iii) equilíbrio entre o uso de subsistência e a geração de renda.Seus esforços refletem o tipo de solução local que ambos os projetos visam apoiar e ampliar.À medida que a implementação avança, essas mulheres oferecem mais do que uma história, elas oferecem um caminho.Porque quando as mulheres são empoderadas dentro das cadeias de valor, e quando essas cadeias de valor estão conectadas à gestão sustentável dos recursos naturais, o resultado é mais do que renda. É resiliência. É apropriação. É mudança duradoura.