Um ano após do Ciclone Kenneth, o norte de Moçambique enfrenta desafios incluindo a COVID-19

Pemba — Primeiro o Ciclone, agora a pandemia. O Norte de Moçambique ainda continua a sofrer os golpes da natureza durante o último ano.
Pemba — No dia 25 de Abril de 2019, o ciclone tropical Kenneth de categoria 4 atingiu as comunidades de cerca de 280.000 pessoas. A Província de Cabo Delgado, que faz fronteira com a Tanzânia, é marcada por deslocações devido à insegurança que gera importantes necessidades humanitárias. Em Fevereiro de 2020, a cólera foi identificada, afectando centenas de pessoas. Agora a COVID-19 traz uma nova ameaça.
A presença da OIM em Moçambique tinha aumentado nas seis semanas seguintes à chegada do Ciclone Idai de categoria 4. Portanto, estava bem posicionada para apoiar o Governo de Moçambique em Cabo Delgado, onde a Organização tem apoiado a resposta ao ciclone, ajuda à cólera, e continua com fornecimento de artigos essenciais de ajuda às populações deslocadas e na resposta do Governo à COVID-19.
"Embora muitas famílias em Cabo Delgado ainda estejam a trabalhar para a recuperação um ano depois do ciclone Kenneth, e sejam afectadas pela insegurança, chegou mais um desafio sob a forma da COVID-19"
Laura Tomm-Bonde, Encarregada do Escritório da OIM Moçambique.
"Estas famílias já são muito vulneráveis. Devemos continuar a trabalhar com urgência em parceria com o Governo de Moçambique e os parceiros humanitários neste período de alto risco para garantir que as comunidades vulneráveis tenham acesso aos serviços básicos essenciais e para reforçar as medidas de prevenção contra a propagação da COVID-19".
Moçambique anunciou o seu primeiro caso COVID-19 a 22 de Março, e a 23 de Abril comunicou 46 casos (oito importados e 38 de transmissão local), a maioria dos quais localizados na capital Maputo e na província de Cabo Delgado. De acordo com os dados do Ministério da Saúde, o maior número de casos foi identificado em Cabo Delgado (26 casos), todos devido a transmissão local.
Cabo Delgado é especialmente vulnerável ao contágio. A província tem uma das mais elevadas taxas de infecção pelo HIV em Moçambique. Existe a preocupação de que a COVID-19 seja difícil de controlar se espalhar dentro dessas comunidades.
A província de Cabo Delgado também se situa ao longo de uma rota de migração internacional, com migrantes provenientes do Corno de África com destino à África do Sul. A sua fronteira atrai migrantes das províncias vizinhas, bem como das vizinhas Malawi, Zâmbia, Zimbabué e Tanzânia, que praticam a mineração artesanal. Muitos mineiros e membros da comunidade vivem em más condições.
Assim, o alcance da COVID-19 em Cabo Delgado agrava outras vulnerabilidades. As famílias deslocadas vivem com famílias de acolhimento em espaços superlotados, o que pode colocá-las em maior risco de contágio. Isso torna o apoio da OIM em abrigos para as famílias deslocadas cada vez mais essencial.
A OIM tem apoiado as autoridades provinciais de saúde nas suas actividades de preparação e resposta e contribuído para os esforços de sensibilização da comunidade para as medidas de prevenção da COVID-19. Através do Direcção Provincial da Juventude e Desporto de Cabo Delgado, a OIM equipou jovens voluntários com megafones e pulverizadores de mochila para pulverizar veículos de transporte público com água e cloro, e está realizando acções de consciencialização em reuniões públicas e mensagens em idiomas locais como Muani e Maconde.
A OIM também fornece megafones aos veículos para difundir mensagens de prevenção.
O projecto "É Nosso Direito" da OIM, que visa melhorar o acesso à informação sobre saúde sexual e reprodutiva, está a incorporar o COVID-19 ao seu currículo para a formação de 200 agentes de mudança em partes de Cabo Delgado.
Estes agentes de mudança incluem migrantes, jovens e trabalhadores de sexo, que irão levar a cabo actividades de mobilização e sessões de sensibilização sobre Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos, HIV, e COVID-19. A formação é implementada em parceria com a ONG Internacional CUAMM; o projecto é financiado pela Embaixada do Reino dos Países Baixos em Moçambique.
Após a passagem do ciclone Kenneth, a OIM e parceiros forneceram ajuda de emergência imediata através do fornecimento de abrigos de emergência e artigos não alimentares a mais de 45.000 famílias, que incluíam lonas, conjuntos de ferramentas, cobertores e outros artigos de primeira necessidade.
A OIM forneceu a 2.200 famílias materiais de construção e apoio em mão de obra para a construção de abrigos resilientes. A OIM reequipou sete edifícios públicos danificados pelo ciclone e prestou apoio em Coordenação e Gestão de Campos (CCCM) em locais de deslocamentos.
A OIM prestou serviços de saúde mental e aconselhamento médico a mais de 2.000 pessoas, referiu 470 doentes para cuidados médicos especializados e actividades de apoio psicossocial a mais de 33.000 pessoas. Além disso, o programa HIV/TB identificou mais de 1.300 indivíduos cujo tratamento tinha sido interrompido, dos quais quase 700 foram reintegrados com êxito no tratamento.
A resposta de emergência à cólera atingiu o seu auge no primeiro trimestre de 2020; a OIM ajudou as missões do Departamento de Saúde a criar centros de tratamento da cólera, que avaliaram e ajudaram a tratar mais de 190 pessoas e alcançaram mais de 7.100 outras através de uma variedade de actividades de sensibilização.
A Matriz de Acompanhamento de Deslocações (DTM) da OIM expandiu as suas operações a 19 distritos e, em coordenação com o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), realizou oito avaliações de base, registando estimativas de população e distribuição geográfica, necessidades sectoriais e acesso a serviços.
A DTM realizou ainda oito Avaliações de Localizações Multissectoriais em cinco locais de reassentamento e trânsito nas províncias de Cabo Delgado e Nampula: De acordo com relatórios recentes da DTM, 6.655 pessoas continuam deslocadas em locais de reassentamento e de trânsito.
A OIM está a prestar apoio multissectorial às famílias afectadas pela insegurança, incluindo Saúde Mental e Apoio Psicossocial, Protecção, abrigos de emergência e artigos não alimentares, juntamente com a coordenação dos clusters de Abrigo e CCCM, na medida do possível e quando o acesso é permitido. Nos últimos três meses, a OIM prestou apoio em matérias de abrigos de emergência e de artigos não alimentares a mais de 5.600 famílias em quatro distritos que receberam pessoas deslocadas devido à insegurança.
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