Diretor regional do Unicef para África Oriental e Austral visita ao país; desastres naturais, pandemia da Covid-19 e violência criaram crise de deslocamento.
Maputo, Moçambique - A situação humanitária em Moçambique deteriorou-se significativamente desde o início do ano. Nesse momento, quase 700 mil pessoas estão deslocadas, das quais 46% são crianças.
A informação é do diretor regional do Fundo da ONU para a Infância, Unicef, para a África Oriental e Austral, visitando o país até domingo.
Proteção
Falando de Pemba, capital de Cabo Delgado, Mohamed Malick Fall disse que uma das suas maiores preocupações é a proteção das crianças.
Ele contou que, em qualquer crise, um dos maiores riscos é separação de famílias. Nesse momento, o Unicef já identificou 1970 meninos e meninas desacompanhados.
Fall disse que “é de partir o coração” conhecer as crianças e perceber que, desde o ataque em Palma no final de março, elas estão separadas de suas famílias, entrando em barcos onde não conhecem quase ninguém e, todos os dias, perguntando pelos pais sem qualquer resposta.
Malick Fall também está preocupado com o problema da subnutrição. Ele visitou um centro apoiado pelo Unicef onde uma criança que, há apenas seis dias, estava à beira da morte por falta de comida, agora se recupera.
Legenda: Crianças brincam em assentamento de deslocados internos de Metuge, em Cabo Delgado.
Cabo Delgado é uma das províncias com maior prevalência de HIV em Moçambique. Mais de 2,2 milhões de pessoas vivem com o vírus.
Com o deslocamento, o diretor regional contou que muitos deixaram de receber tratamento, aumentando os riscos.
Água, saneamento e educação são outras áreas de preocupação. E o sistema escolar que já era muito frágil, piorou o fluxo de deslocados. Algumas escolas fazem três turnos para responder a demanda.
Resposta
Nesse momento, uma das prioridades da agência é o acesso humanitário, dificultado pela violência.
Ele realçou a cooperação com as autoridades locais e o governo nacional, destacando “o forte compromisso em apoiar a população”.
No início do ano, o Unicef lançou um apelo humanitário de cerca de US$ 50 milhões, que foi financiando a apenas 40%.
Agora, a agência aumentou o apelo para US$ 96,5 milhões, sendo US$ 55,7 milhões dirigidos a Cabo Delgado.
No total, o Plano de Resposta Humanitária precisa de cerca de US$ 250 milhões até o final do ano, mas recebeu menos de 10% desse valor.
Fall reafirma a importância de resolver a crise, não apenas devido ao sofrimento humano dos afetados nesse momento, mas para evitar uma escalada. O diretor afirmou que estas crises “podem se espalhar rapidamente, atingindo um nível regional e uma dimensão internacional”.
Para ele, “este é o momento de atuar”.
Legenda: Diretor regional do Unicef para a África Oriental e Austral, Mohamed Malick Fall, em Cabo Delgado.
No início da semana, Fall esteve na capital, Maputo, onde se encontrou com os ministros dos Negócios Estrangeiros, Gênero e Juventude e Administração. E também com a ativista e ex-primeira-dama, Graça Machel.
Depois, ele visitou a Ilha do Ibo, em Cabo Delgado, que considerou “uma verdadeira representação das várias crises” que afetam o Norte do país.
A ilha foi um dos locais mais afetados pelo ciclone Kenneth em 2019, a crise de Covid-19 e agora o influxo de deslocados. O local, onde viviam entre 11 e 12 mil pessoas, recebeu “cerca de 30 mil, que partilham recursos que já eram escassos e colocam pressão sobre serviços que já eram frágeis”.
Apesar disso, Fall disse que o que o marcou foi “a generosidade, humanidade e solidariedade da comunidade”, que “acolheu famílias inteiras em suas próprias casas e partilharam os poucos recursos que tinham”.
Depois de Cabo Delgado, ele regressa a Maputo, onde deve se encontrar com mais alguns membros do governo, incluindo o ministro da Justiça.