Maputo/Addis Abeba - Foi uma tragédia que abalou o continente africano: sobreviventes dos 64 migrantes Etíopes, encontrados a 24 de Março, fechados num contentor na traseira de um camião, perto de Tete, Moçambique, depois de atravessarem a fronteira com o Malawi.
Onze jovens sobreviventes regressaram, esta semana, à Etiópia, graças à coordenação dos governos da Etiópia e de Moçambique, assistidos pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) e pela Iniciativa Conjunta UE-OIM para a Protecção e Reintegração dos Migrantes no Corno de África.
Um mês depois de terem escapado à morte, os jovens concordaram que foi um milagre terem sobrevivido. Desde que foram resgatados, a magnitude da sua experiência de risco de vida e da sua perigosa viagem está agora a despertar.
"Toda a viagem foi difícil e eu sofri muito", recordou um dos jovens. "Eu sofri a tortura dos contrabandistas. Caminhei durante dias nas florestas. Mal tinha comida e água. Mas o pior de tudo foi a viagem no contentor: num espaço que mal conseguia conter 20 pessoas, carregaram 78 de nós, um em cima do outro. Gritávamos por ar, implorando-lhes que abrissem a porta. No último posto de controlo, batemos no contentor, gritando pelas nossas vidas. Foi aí que a polícia nos ouviu".
Após a descoberta pelas autoridades moçambicanas, funcionários do Serviço Nacional de Migração de Moçambique (SENAMI), levaram os sobreviventes para um hospital em Tete, onde os jovens foram tratados devido a desidratação e exaustão. A nossa fonte soube que, após a sua descoberta, estes tiveram que passar um período de quarentena, como parte das medidas de prevenção da COVID-19 de Moçambique. A OIM Moçambique contactou o Consulado da Etiópia em Pretória, na África do Sul. Para uma melhor gestão deste caso, foram solicitados serviços de tradução entre o Consulado da Etiópia na África do Sul, os migrantes e as autoridades locais em Moçambique tendo este esforço conjunto facilitado o seu regresso voluntário à Etiópia.
Em Tete, três dos sobreviventes deixaram as instalações e ainda não foram localizados. Em declarações ao pessoal da OIM, os restantes 11 sobreviventes explicaram que apenas queriam regressar à casa.
No dia 28 do mês corrente, os 11 homens viajaram para a capital de Moçambique, Maputo, onde a OIM forneceu vestuário, artigos de higiene pessoal, bem como artigos para reduzir os riscos de exposição à COVID-19. No dia seguinte, os sobreviventes embarcaram num avião para a Etiópia.
Os migrantes estão agora sob cuidados das autoridades etíopes, submetidos a uma quarentena obrigatória de 14 dias como medida de prevenção da COVID-19, na Etiópia. Durante o período de quarentena, a OIM Etiópia prestará aconselhamento individual e em grupo aos repatriados.
OIM planeja ajudar os migrantes a retornarem às suas comunidades de origem nos estados regionais de Oromia e das Nações do Sul, Nacionalidades e Povos, respectivamente a cerca de 250 km e 350 km de Addis Abeba, capital da Etiópia. Quando chegarem a casa, a OIM prestará a estes sobreviventes assistência para se reintegrarem com as suas famílias e vizinhos. A mesma incluirá apoio psicossocial e económico.
De se referir que anualmente, Milhares de pessoas do sul da Etiópia fazem a viagem do Chifre da África para a África Austral. Seguindo a chamada Rota do Sul, que passa pelo Quénia, Tanzânia, Malawi e Moçambique antes de chegarem à África do Sul.
Os migrantes pagam aos contrabandistas entre 2.500 e 6.000 dólares americanos com a promessa de viajar em segurança. Contudo, depois de atravessarem a fronteira etíope, a situação muda normalmente - e a viagem torna-se assustadora. Os contrabandistas confiscam documentos de viagem e forçam frequentemente caminhadas de longa distância sob o manto da escuridão, com pouca comida e água. Alguns migrantes morrem ao tentarem fugir aos postos de controlo de segurança nas fronteiras, enquanto muitos outros definham em detenção em países estrangeiros.
Um dos sobreviventes explica por que razão tentou fazer a jornada:
"Na Etiópia, eu estava a trabalhar ao acaso, sem um rendimento estável. Optei por ir à África do Sul em busca de melhores oportunidades económicas", explicou. "Eu queria trabalhar lá, poupar dinheiro e voltar para viver melhor. Já sofri o suficiente nesta viagem. Pensei que podia melhorar a minha vida, mas preferia morrer no meu próprio país".
Outro dos migrantes sobreviventes disse à OIM: "Estou contente por finalmente regressar a casa em breve. Passei por uma viagem muito difícil, foi terrível. Tenho saudades da minha mãe e do meu pai. Principalmente, tenho saudades do meu irmão mais novo, Mamush. Vou contar a ele e a muitos dos meus amigos de volta para casa sobre o perigo da viagem. É melhor tentar trabalhar após regresso à casa. Até começar como engraxador de sapatos é melhor do que tentar tal viagem".
O Embaixador da Etiópia na África do Sul expressou o seu apreço pela assistência prestada aos migrantes.
"Saúdo e aprecio os agentes da polícia que interceptaram o crime às 02:00 horas da manhã de 24 de Março na fronteira do Malawi e de Moçambique", disse S. Exa. o Dr. Shiferaw Teklemariam. "As suas acções no posto de controlo fronteiriço salvaram os 14 sobreviventes desta tragédia que ceifou a vida a 64 etíopes". Os agentes da migração em Tete foram fundamentais para o posterior tratamento integral dos sobreviventes".
E continuou: "Neste momento, apelo profundamente a todos para que se unam contra o tráfico de seres humanos e o contrabando de migrantes. Ao mesmo tempo, louvo a OIM como uma organização que representa a humanidade sem fronteiras e os pormenores dos afectados".
Sobre a Iniciativa Conjunta UE-OIM
A assistência faz parte da Iniciativa Conjunta UE-OIM para a Protecção e Reintegração dos Migrantes, que facilita uma gestão ordenada, segura, regular e responsável da migração através do desenvolvimento de políticas e processos de protecção e reintegração sustentáveis baseados nos direitos e centrados no desenvolvimento.
A Iniciativa Conjunta UE-OIM, apoiada pelo Fundo Fiduciário de Emergência da UE para África, abrange um total de 26 países africanos, que trabalham em estreita cooperação com organizações humanitárias como a OIM.