Os atores humanitários e de desenvolvimento, incluindo a Organização Internacional para as Migrações, estão a aumentar o apoio psicossocial de base comunitária.
MAPUTO, Moçambique - Quando a violência começou em Quissanga, na província moçambicana de Cabo Delgado, Nrúria Amade entendeu que tinha de sair dali.
“Sentia-me tranquilo a trabalhar na minha machamba [pequena plantação tradicional]”, recorda-se. "Mas quando os ataques começaram, tudo mudou. As casas foram queimadas, as pessoas fugiram e as que tentaram voltar foram novamente atacadas. Foi nessa altura que eu saí, sem nada".
Desde 2017, Cabo Delgado tem vivido um conflito que já deslocou mais de um milhão de pessoas. Grupos armados não estatais atacaram aldeias e cidades, obrigando homens como Nrúria e a sua família a fugir várias vezes.
Para além da perda de casas e de meios de subsistência, o conflito deixou cicatrizes psicológicas. O medo, o luto e a insegurança contínua tornaram-se uma realidade diária para muitos.
Legenda: “Nrúria a relatar o momento em que teve de fugir da violência”.
No distrito de Metuge, em Cabo Delgado, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) tem disponibilizado apoio psicossocial e de saúde mental tanto às pessoas deslocadas como às comunidades acolhedoras através de diferentes iniciativas.
Um desses esforços é um projeto de costura e alfaiataria no Centro de Reassentamento de Nicavaco, organizado pelo programa de Proteção e Apoio Psicossocial e à Saúde Mental da OIM.
Legenda: Celestino transporta a sua mesa de costura para o local de trabalho improvisado onde se reúne com os outros homens da associação.
Esta iniciativa começou quando a OIM disponibilizou máquinas de costura e materiais a uma associação de homens recém-criada na comunidade.
O objetivo era criar um espaço onde os membros pudessem encontrar-se, partilhar experiências, aliviar o estresse e criar uma nova fonte de rendimento através da costura, depois de terem perdido os seus negócios e meios de subsistência anteriores.
Celestino Pius, um dos fundadores, fugiu da violência em Muidumbe com os sete membros de sua família. Nunca imaginou a possibilidade de viver em Metuge, mas as máquinas de costura disponibilizadas permitiram-lhe fazer e reparar roupas para a comunidade, proporcionando-lhe um rendimento, e restaurando o seu propósito e sentimento de pertença.
Legenda: Celestino e o seu filho Tiago. Tiago está vestido com o uniforme feito pelo pai. Quando crescer, ele quer ser um polícial, e gosta de fazer carros de barro.
“Antes do projeto, nem sequer podíamos comprar produtos básicos”, acrescenta.
"Agora, ao costurar e vender uniformes, podemos gerir pequenas despesas. A vida mudou para melhor". Tiago, o filho de Celestino, vai para a escola vestido com o uniforme feito pelo seu próprio pai.
Pouco depois, o grupo de homens começou a coser uniformes escolares para 65 crianças deslocadas internamente identificadas pela equipa de campo da OIM com dificuldades de frequentar a escola. Muitas tinham perdido os seus pertences e documentos durante o conflito em Cabo Delgado e o impacto do ciclone Chido em dezembro de 2024.
A OIM apoiou e encaminhou as crianças para a matrícula escolar, providenciou materiais e a nova associação costurou uniformes que lhes permitiram retornar às aulas.
Para pais como Awa Said, deslocada de Mocímboa da Praia em 2019, o impacto foi imediato. “Aqui, se uma criança não tiver um uniforme adequado, não pode ir à escola”, explica.
“Agora a minha filha pode ir e pelo menos aprender a escrever o seu nome”, continua Awa.
A sua filha Nhamo está entre as crianças deslocadas que receberam uniformes feitos pela associação. Ela gosta de matemática e quer ser uma motorista quando crescer.
Legenda: Awa Said e a sua filha Nhamo com o seu novo uniforme.
A associação é uma iniciativa de subsistência e um espaço de ligação.
Os membros ensinam uns aos outros novas técnicas, partilham preocupações e experiências, apoiam-se mutuamente e aprendem mais sobre saúde mental, respeito e como garantir que todos se sintam seguros, e como obter ajuda caso alguém cometa algum abuso de poder.
Nrúria, que aprendeu a costurar com o seu irmão mais velho quando era criança, diz que estes momentos são tão valiosos como os rendimentos.
"Quando trabalhamos juntos, falamos sobre o que nos vai na alma. Isso ajuda", comenta Nrúria.
Legenda: Nrúria costurando uniformes para os alunos.
A história do grupo reflete uma realidade mais ampla em Cabo Delgado. A exposição à violência, as deslocações recorrentes e a incerteza contribuíram para o aumento das necessidades de saúde mental e de apoio psicossocial.
Os atores humanitários e de desenvolvimento, incluindo a OIM, estão a aumentar o apoio psicossocial de base comunitária para responder a estas necessidades, mas a magnitude da crise continua a sobrecarregar os serviços disponíveis.
Em 2025, mais de 20.000 pessoas foram alcançadas em Metuge, através do suporte da OIM e do programa de Protecção e Apoio Psicossocial e à Saúde Mental da OIM.
Para Celestino e outros em Nicavaco, o progresso mede-se pelo rendimento obtido e pela paz de espírito recuperada. "Passámos por muita coisa. Não sei o porquê de toda esta violência", diz ele.
“Mas agora estamos aqui e estamos caminhando em frente”, afirma Celestino.
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